Celebração de Páscoa no Egito
- Michelle Bastos
- 2 de mai. de 2016
- 3 min de leitura
Hoje é celebrada a Páscoa no Egito. Ela é celebrada por cristãos e muçulmanos. Quer saber o por quê?

Representação de Osíris no Museu do Cairo
A Páscoa é celebrada há aproximadamente 4.500 anos no Egito. Pode parecer uma incongruência já que Jesus passou pela terra há apenas 2016 anos. Entretanto, no antigo Egito, já era comemorado o Sham El Nessim. A data que coincide com a Páscoa Cristã Copta e Ortodoxa, representa o início da primavera, período que começavam as cheias do Rio Nilo. Na remota civilização, isso significava a vida, a fertilidade e o recomeço. Já que toda a subsistência dependia do rio e das suas cheias para fertilizar as terras áridas do deserto.
Mas se te parece razões completamente diferentes para se comemorar, não sendo uma autêntica Páscoa, as semelhanças vão um pouco além, revelando as origens pagãs da celebração. A simbólica história da morte e ressurreição também era notória.
Escuta essa: você já ouviu falar de Osíris, antigo rei do Egito, que foi morto por seu irmão Set. E algum tempo depois sua esposa Isis, encontra seu corpo. Neste momento ela fica grávida do filho Hórus por um “sopro divino”, Osíris ressuscita e passa a controlar o Reino do Mortos. Passam a acreditar que as lágrimas de Isis são a causa das cheias do Nilo. E Hórus nasce no dia 25 de dezembro. Essa história te lembra alguma coisa? Bem parecida com a Páscoa Cristã, não?
Obviamente a história é muito mais complexa do que isso, se você quiser ler mais, dá uma olhada aqui. Essa complexa e intrigante história é o motivo pelo qual tanto cristãos quanto muçulmanos celebram a data.
Mas a Páscoa no Brasil já foi há um tempo. Eles estão atrasados. Bem, os cristãos coptas e ortodoxos a celebram em data diferente dos católicos. Desde o concílio de Nicéia, 325 D.C, ficou acordado que a Páscoa fosse comemorada por todos os cristãos no domingo seguinte à lua cheia do equinócio da primavera, e, portanto, depois da páscoa judaica. O acordo seguiu até 1582 D. C, quando a Igreja Romana, católica, adotou o calendário gregoriano, feito pelo Papa Gregório XIII, que alegou erros no ano solar, adiantando a celebração em 13 dias. As Igrejas Copta e ortodoxa não aceitaram a mudança e permaneceram fiéis ao calendário de Nicéia, que determina que hoje, é a Páscoa de 2016.
Mas como os egípcios, os primeiros a celebrarem a Páscoa no mundo, o fazem nos dias de hoje?
Ano passado eu estava lá e conferi como é isso tudo. O dia é marcado pelas famílias lotando os parques do Egito. É tradição comer nos gramados como se fosse um pique nique, mas nada prático. Páscoa é dia de comer renga, o mesmo que os faraós comiam nessa data. O que é renga? Um peixe salgado, que você vai queimando em uma labareda de fogo e depois come. E nisso, vai escorrendo óleo pelos braços, cotovelos, sem contar o cheiro fortíssimo do peixe. E para acompanhar, nada menos do que muita cebola, tomate e folhas. Imagina a praticidade de se comer isso em um parque? É engraçado!

O peixe Renga, comida tradicional de Páscoa desde o tempo dos faraós
Eu provei o renga, mas em casa, rs, e adorei. Mas fiquei meio irritada de comer com as mãos e tal.
Além disso faz parte da tradição colocar água em uma cebola e coloca-la na porta, bem como folhas de trigo. Segundo eles traz sorte e dinheiro.
Ovos de chocolate, nem pensar. As crianças se contentam em pintar ovinhos!
Os cristãos celebram nas igrejas. Eu quis ir ver como era. Fiquei um pouco assustada por que na porta da igreja tinham tanques, soldados armados e tudo mais para proteger os Cristãos, pois na época estavam acontecendo diversos atentados e bombas no Cairo, não mais. Para entrar na igreja foi bem difícil também. Chamaram várias pessoas e fizeram praticamente uma entrevista para saber por que eu queria entrar lá e principalmente por verem que o Sedik é muçulmano. Expliquei que era cristã e queria ver como era a celebração. Nos deixaram entrar, mas ficaram o tempo todo andando bem pertinho da gente. Chegamos já estava no finalzinho da missa, as pessoas acendiam velas, rezavam e confraternizavam, nada muito silencioso. Ao sair, senti na pele como não é nada fácil ser cristão em um país que 90% é muçulmano.

Interior da Igreja Copta de São Jorge
Quando estávamos saindo junto com a multidão, o Sedik pensa alto “eu sou louco de te trazer aqui, a chance de alguém passar atirando aqui agora é muito grande”. Quando eu olhei os soldados apostos, de arma em punho, justamente para prevenir ou terminar rapidamente uma situação dessas, eu nunca senti tanto medo na minha vida. Imagina o que eles passam todos os dias?